A Luta de Aronofsky pela Arte

outubro 11, 2012

Darren Aronofsky é artista. E a prova definitiva disto está em sua mais nova película, Cisne Negro (Black Swan), estreado no Brasil ano passado e disponível agora para locação. O reconhecido diretor de Requiem para um Sonho e de Um Lutador, ambos sucessos dos anos 2000 e aclamados pela crítica, elege como tema para seu novo trabalho nada menos que a vida artística, tomada de perto.

Cisne Negro conta a história da bailarina Nina Sayers (Natalie Portman, indicada ao oscar pelo papel), uma jovenzinha bela e franzina, assustada pela vida e obcecada pela sua arte. Enfoca, como em grandes narrativas intimistas, a tragetória da heroina na consecução de seu ideal, passando inevitavelmente pelo caminho de pedras do autoconhecimento e da superação dos próprios demônios, assumidos em formas humanas e recheando a trama de episódios que misturam mistério e perturbação psicológica.

Vissent Cassel interpreta o diretor da companhia de dança, Thomas, que escolhe Nina para o papel principal na peça de abertura da temporada, O Lago dos Cisnes. O que se requer para tal papel é que a dançarina seja capaz de interpretar duas facetas diferentes: o cisne branco, no começo, e o cisne negro, explosão sensualista do fim da obra. Caberá a Nina resolver se é capaz de expandir sua personalidade, ao ponto de viver a arte para além do domínio rigoroso da técnica: mas sim rendendo-se ao espírito dionisíaco que é raiz do trabalho criativo.

A atuação de Natalie Portman, já conhecida pela competência de filmes como O Profissional e Closer – Perto Demais, é competente agora também, e foi merecidamente indicada para o prêmio da Academia. Já Mila Kunis, que interpreta outra bailarina da companhia, é mais arquetípica e não convence tanto.

Sobre o roteiro e resultado final do filme, não resta dúvida de que os principais envolvidos no trabalho conhecem o terreno em que pisam: leram Nietzsche e A Origem da Tragédia, e sobretudo conhecem de perto os ímpetos que lutam dentro do artista pelo nascimento da obra de arte. Não há arte fácil, sem experiência pura de vida. É esta a luz que Aronofsky nos vem lançar, rasgando as trevas do entretenimento obscurantista e nos mostrando como é que se faz Cinema.

Pela instituição do Antianiversário

setembro 18, 2012

Os dezoito anos foram o meu último marco comemorado. Desde então, tenho explicado anualmente a cada amigo a ausência absoluta de ânimo para festinhas de celebração dessa data tenebrosa. Ouso crer que não são só os átomos do meu corpo que não se aliam em êxtase pela formalização do envelhecimento. As nossas costas, que vão doendo muito cedo, são motivo de deslumbre? E o que dizer do destino malfadado da hipermetropia, que vai encurtando o braço de alguns, impedindo-os de ler o livro que seguram?

O leitor mais adulto dirá que exagero, antecipo escandalosamente as mazelas apenas possíveis da maturidade, que esqueço das delícias de sabedoria que trazem os anos, ou que, em suma, quero confete pelos meus 23 anos. Mas se dedicar-se um pouco, o querido leitor, a um esforço de empatia, e com paciência chegar ao fim do texto, verá que tenho razões para propor aqui uma mudança radical dos nossos costumes tradicionais. Pois o que trago, a você leitor que me lê de ôculos na ponta do nariz e afastando o jornal, e igualmente ao indivíduo que se quer viveu os anos oitenta (não importa), é a inovadora ideia da celebração do Antianiversário.

Acompanhando o espírito dos tempos, que é o da babação da juventude, da idolatria da vida saudável, e, por fim, da felicidade que vende margarina, e alinhando-nos às tendências mercantis dos tratamentos anti-idade, desfraldemos também uma inútil bandeira contra essa realidade tão negada quanto mais premente: a da eterna operância do sino das horas.

A ideia, na sua execução, é simples e revolucionária. Consiste em reservar a véspera da tão incensada data de nascimento, sair pra beber com os amigos, celebrar a derradeira juventude, e passar o aniversário de ressaca, sem consciência da tragédia que nos espreita, e, de preferência, gozando o sono dos acabados.

Em cada Antianiversário, negaríamos o evento do dia seguinte, e permaneceríamos até o fim dos nossos dias com o cômputo de anos que temos hoje, data em que minha iluminada proposição chegou ao público. E viveríamos, então, uma sucessão incontornável de deslizes justificáveis, desapercebidos da maior verdade, num grande salto por sobre a tradição antiga que aconselha meditações regulares com solenes empunhaduras de caveira.

Seleção Artificial

abril 10, 2012

As redes sociais embelezam. Com esse ponto final tão precoce, tomo a feição de autor bíblico e garanto o ar sapiencial do escrito. Porém, pode o leitor mais metafísico cuidar que minha ponderação é toda de ordem fútil, por isso já acrescento, antes de qualquer coisa, que a rede social vai além em sua função humanitária – ela também torna mais felizes as pessoas e situações. O que resta-nos fazer, a não ser imediatamente deitar louros a essa ferramenta que tão grandes auxílios tem trazido à raça humana?

Explico a frase inicial, mas não teoricamente, que para isso me falta talento, mas com uma história que serve de exemplo lapidar. Antes de tudo, preciso confessar que eu não estava lá na ocasião, mas um amigo contou-me, e jura que viu pessoalmente as cenas: houve um casamento no interior do Estado, em 2011, que foi um evento público; tratava-se, o pai da noiva, de importante político local, e aproveitando para retocar a imagem de bom democrata, abriu a comemoração a todos que desejassem participar – e fê-lo publicamente, divulgando nota no jornal televisivo da cidade. Não deu outra, na festa estavam presentes os amigos e parentes, o povo da cidadezinha, os companheiros de coligação do pai, e como se não bastasse, todos os desafetos políticos. Depois de terminado o cerimonial, fez-se um churrasco, com direito a cerveja liberada. Juntaram-se, então, os opositores a se ofenderem, por assuntos de Estado e pessoais (isto é, xingando a mãe), e em poucos minutos, três pessoas estavam no chão nocauteadas, incluindo uma senhora, e um homem que por muito pouco não podia reclamar proteção da Delegacia do Idoso.

Menos de uma semana depois, no Facebook do marido, da esposa, e principalmente do pai, um álbum lindíssimo do casamento, fotos da cerimônia e da decoração, e inclusive dos convidados, bem posados, alinhados um lado do outro. A fotografia havia sido antes do quebra-pau, e alguns dos que se digladiaram, na foto estavam lado a lado. Porém as imagens dão ideia de um belo e feliz evento, como toda foto de rede social que se preze. Não há gente triste ou enraivecida em coluna social de jornal; e não fazemos feio também quando se trata de meios virtuais. E é assim que todo mundo apenas se assemelha ao seu profile, porque lá vigora a seleção artificial dos fatos e dos ângulos.

Trinta Anos Esta Noite

abril 10, 2012

O espectador geralmente pega o momento já pela metade: os corpos separados, mal envoltos em lençol, e logo um se inclina na direção do maço à espera no criado-mudo. O cigarro pós-sexo é uma coisa tipicamente francesa. A recorrência da imagem em tantos momentos da cinematografia do país pode prestar tal como sintoma de uma peculiaridade psicológica: a da individualidade triunfante sobre toda efêmera ligação sentimental.

a sagração da individualidade 

É assim que inicia Trinta Anos esta Noite (Le Feu Follet, 1963), do cineasta francês Louis Malle. Com Roteiro baseado no romance homônimo do escritor Drieu de La Rochelle, por sua vez baseado na vida do poeta dadaísta Jacques Rigaut, o filme conta a história da vida do burguês Alain Leroy, que relembra acontecimentos de seu passado pródigo à medida que reencontra antigos amigos, procurando também um sentido para sua existência.

Maurice Ronet, ator cotado entre astros como Alain Delon e Jean-Paul Belmondo para o papel principal, foi escolha mais que acertada. Encarnando o tipo melancólico e depressivo, o personagem central é também o alter-ego assumido do diretor, que escolhe, entre toda sua filmografia, Le Feu Follet como seu filme mais autoral e mais oposto à ideia de entretenimento (desbancando clássicos como Ascensor para o Cadafalso e Os Amantes).

Ponto alto da realização está na capacidade de retratar o drama profundo e crescente de seu personagem central, agonia esta traduzida visualmente em símbolos, forma e movimento cooperando para a retratação de ideias complexas. Não resta dúvidas que o drama existencial se insere na linhagem dos retratos sessentistas do sentimento de vazio e de absurdo, bem como na tradição das obras que abordam as dificuldades da comunicação.

a busca da certeza para a derradeira escolha

Não obstante os grandes amores de que foi objeto e as históricas relações de amizade experimentadas na juventude recente, Leroy é, ao fim e ao cabo, incapaz de amar; a dor é de “não poder tocar e ser tocado com sinceridade”, embora quase chegue a crerque ama, de tanto que desejou ser amado. Imagem de Don Juan pintada em tela corroída, atinge ele seus trinta anos tendo experimentado muito, mas possuindo nada. Tudo cai: cabeça de boneca, sequência de fotos, blocos empilhados e por fim o paletó. Alma que encara tamanhas angústias, não se admira que dela tantos se compadeçam – as mulheres, dentro da película, e nós todos, fora dela.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Feu Follet
Ano: 1963
País de Origem: França
Diretor e roteirista: Louis Malle
Com: Maurice Ronet, Jeanne Moureau

Apologia de Sócrates

maio 16, 2011

No diálogo Apologia de Sócrates, Platão registrou a defesa de seu mestre diante do tribunal ateniense, que o acusava de perverter os jovens e exercer uma má influencia na cidade. Nas páginas dessa pequena obra, temos acesso desimpedido às idéias e à pessoa daquele que lançou os fundamentos do nosso modo de dialogar racional. O discurso é bastante tocante, do ponto de vista dramático, mas sobretudo esteticamente. E alguns pontos do texto que me chamaram a atenção, expondo claramente a visão socrática da realidade, vou comentar aqui.

A virtude. Sócrates parece ter uma ideia clara sobre o que ela é. Ele reconhece a sua forma, e é a ela que se dirige seus esforços de se tornar “alguém melhor”; vê que nenhuma busca por bens ou glória mundana pode ser comparada a isso. Também é claro para ele a urgência de seguir a própria vocação, sem temer os aparentes males a que isso possa levar. Esse padrão moral é bastante ascético, e me lembra de todo modo o cristianismo, com seu apelo urgente ao homem, para que coloque Deus acima de todas as coisas (Como Cristo diz: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as demais coisas vos serão acrescentadas”. Mateus 6.33). É claro que o Novo Testamento, posterior a esse florescimento filosófico grego, é quem apropriou-se de tais conceitos. Pois temos também que Antígona enfrentou o poder mundano em nome do poder atemporal, com sua consciência de que, a parte às leis escritas pelos governantes, há acima disto as leis não escritas – imutáveis, superiores.

Faço uma crítica (não descartando a idéia de que a ignorância é minha sobre o pensamento de Sócrates, e não uma limitação de visão deste). Sócrates, como os evangélicos atuais e outros tipos de otimistas, crê que ao homem bom não pode acontecer algo de ruim, e é essa uma das razões da sua serenidade diante da morte iminente. Deixemos o post mortem para outra ocasião, e apenas citemos um nome, o mais polêmico da antiguidade, que nos orienta sabiamente justo pela confusão que faz em nossas crenças: Jó, o justo sofredor. E de passagem, incluamos no rol pelo menos mais dois justos punidos violentamente: Cristo e Sócrates, inegavelmente. Que o mal acometido a estes é mal apenas em aparência, é complicado dizer.

Voltando à vocação, como parte da virtude do homem. Importa obedecer a esse chamado interior: no caso de Sócrates, o uso da conversação com todo tipo de gente, instruindo e derrubando enganos e falácias. E até à morte o filósofo acederá tranqüilamente, em nome e confiante nessa verdade que alcançou. Muito semelhante aos Apóstolos, mais tarde, um a um mártires na mão da burocracia (os que, segundo Estêvão antes de ser apedrejado, “sempre resistem ao Espírito” – Atos 7.51).

Outro ponto interessante, que é central no ensino de Sócrates, e que aparece de modo claro neste diálogo, é a consciência da ignorância, o famoso “só sei que nada sei” (cujos limites de significação podem ser percebidos por qualquer um que já tenha lido Platão, e não apenas ouvido a frase de professores de Ensino Médio). Sócrates tem sim vários conhecimentos (muitos apriorísticos, e oriundos do senso comum), mas em sua argumentação, enfatiza que sabe que não sabe. E aí neste ponto, diz ele, é que sobrepuja os seus adversários: pois não se arroga a capacidade de saber o que não sabe, e isso, pelo menos, ele sabe. Logicamente, assim sendo, sabe mais.

Sócrates opera, diante do tribunal, o seu método da Maiêutica. Através do seu discurso, apela ao bom senso do ouvinte, aos conhecimentos comuns, a fim de conduzir o “parto” de novas idéias, originadas das primeiras assunções. Nessas interpelações, usa com maestria a ironia, ferramente que, depois dele, ficaria mais restrita aos domínios da ficção. Às vezes, faz-nos rir: “há os que afirmam que não há cavalos, e, ao mesmo tempo, acreditam que existem coisas relacionadas a cavalos?” (em Apologia).

A conduta do filósofo diante da morte  é peculiar; não teve um Getsêmani, suor de sangue, mas foi sereno, mais ovelha muda que a Ovelha Muda. Inclusive, sabia que poderia recorrer a técnicas de argumentação com o fim de livrar-se da condenação dos juízes, mas não é essa a maneira como usará as palavras. Não se abate, não pede clemência, mas mantém até o fim a virtude da preservação da honra, da Agathia – a bravura do guerreiro.

Caprichos de Lear

janeiro 27, 2011

A revolta pode ser a negação de um pedido. Ela nega porque afirma algo, em geral. Na peça Rei Lear, há revolta por toda parte: de homens contra homens, destes contra a “natureza”, e desta contra os primeiros, em revanche.

Rei Lear está velho e cansado, e nisso Shakespeare começa a peça. Os trabalhos e responsabilidades do governo já ultrapassam o fôlego do rei, que resolve partir a coroa entre as suas três filhas e seus maridos. Ficará com a monarquia titular, mas solta as rédeas na prática. Na hora de dividir os reinos, pede que as filhas declarem o quanto o amam – quer que lhe devotem sentimento completo.

Goneril e Regan, as mais velhas, condescendem com o pai velho; pragmáticas, uma após outra exaltam as qualidades do pai e lhe declaram amor exclusivo e incondicional. O bajulam. Já Cordélia, a caçula, recusa-se a esbanjar com os lábios aquilo que é falso no coração. Ama moderadamente, e não mais com palavras do que em ação. Tal declaração levanta a ira de Lear, que não aceita a “afronta”, renega a filha, e a chama “desnaturada”, pois a atitude de ingratidão é, para Lear, totalmente desumana.

A falsidade e o oportunismo das duas mais velhas não é difícil ao leitor de perceber. Não muito mais tarde, também elas reputam exagerados os caprichos de Lear, tornado hóspede de seus palácios. Ter um séqüito com cem homens, pra quê? Convém mais que Lear hospede-se no reinado de Goneril sozinho; e o rei, não aceitando desvencilhar-se da comitiva, é deixado na rua. Numa grande cena de tempestade e loucura.

O crítico Harold Bloom faz algumas observações interessantes sobre essa tragédia de Shakespeare, no seu ensaio O Cânone Ocidental (no qual coloca Shakespeare como centro da Cultura Ocidental). À crítica que coloca Lear como o arquétipo moderno do patriarca centralizador, Bloom acrescenta um detalhe importante, ao fazer-nos enxergar no personagem meio paternal e meio louco nada menos que o Javé bíblico. Leia a Torá e leia Lear; a paixão, a paternalidade sentimental, os caprichos…

Mas nota-se que Lear é amado. As filhas reconhecem suas benfeitorias. Porém, o amor genuíno de Cordélia não abarca a imensidão dos caprichos (aliás, detalhe importante é o componente “loucura”). Amor que recalcitra não merece a pecha de desamor (onde estão os não recalcitrantes?) . Ademais, o respeito a outro, e mesmo o respeito estóico à Realidade, dificilmente escapa ileso ao desejo interior de integridade e de ordem. Pois mesmo Lear não abraça contente a “natureza desnaturada” das filhas, que precipita-lhe, aliás, ainda mais na vertigem da loucura. Não é fácil ser impassível.

To take or not to take

dezembro 10, 2010

Compreendi que a hesitação de Hamlet – Ato III, crânio na mão – não reflete apenas a angústia de quem se debruça e observa o vale da morte, reflete mais: um embate mais presente, e mais genérico.

É um dilema moral evidente. To be or not to be, bem pode transfigurar-se em um to do or not to do. Ou em outros dois pólos: to suffer the slings or not to suffer / to take arms or not to take. Porque a cabeça de um Hamlet tem a controvérsia de um Tribunal, e seu raciocínio é sempre dialético.

To be, or not to be– that is the question:

Whether ‘tis nobler in the mind to suffer

The slings and arrows of outrageous fortune,

Or to take arms against a sea of troubles

And, by opposing, end them. […]

Hamlet, ATO III, cena I

 

Hamlet representa o melhor do humanismo shakespeareano. É um herói que se caracteriza com sua hesitação, com sua falta de jeito com as respostas prontas e óbvias. Ele encena nossas encruzilhadas, sofre com meros pensamentos. E num ponto, não sabe se resigna-se ou pega em armas. That’s the question.

Percebe que há um mal, mas não lhe discerne o rosto; abarca na sua mente a ambiguidade do mundo, do crime e do castigo. E porque tanto pensa, fica imóvel.

[…]

Thus conscience doth make cowards of us all,

And thus the native hue of resolution

Is sicklied o’er with the pale cast of thought,

And enterprises of great pith and moment

With this regard their currents turn awry,

And lose the name of action.

 

Horácio Quiroga

novembro 18, 2010

A modalidade de narrativa denominada “conto” é a que mais tenho aproveitado ultimamente; talvez seja mero sinal desses tempos em que “tempo” é justo o que não nos resta depois de dispendiosas obrigações. O grande romance requer menos interrupções, e o conto, lê-se antes da interrupção chegar – enquanto se aguarda numa fila, por exemplo. Aquele que foi sempre o formato preferido de Jorge Luis Borges, tem sido o meu, também.

Tenho lido Horácio Quiroga, um uruguaio de vida muito trágica e desgraçada, que nasceu na cidade de Salto em 1879. Posteriormente, se mudaria para Buenos Aires, e como seu pai era de origem Argentina, Quiroga obteve dupla nacionalidade; hoje, então, sua obra integra as literaturas uruguaia e argentina.

“Contos de Amor de Loucura e de Morte” é uma excelente coletânea de histórias curtas, notáveis pela técnica particular e pela escrita fluida do autor. Na maioria dos contos, se destaca o inusitado e o trágico dos desfechos. Cenas de respeitáveis tragédias, aquelas que arrepiam, fazem baixar a fronte, quase pôr as mãos na cabeça, como quem sente o efeito de catarse. As reverberações da leitura dessas histórias permanecem por muito tempo. Como quando li “O travesseiro de Plumas”.

A minha primeira aproximação com Horácio Quiroga foi proporcionada por uma professora da cadeira de Comunicação em Língua Portuguesa (curso de Jornalismo). Uma das disciplinas mais proveitosas do curso, diga-se. Tínhamos contato com a grande Literatura, e éramos incentivados a escrever nossas próprias obras. Valeram muito os exercícios.

Voltando ao Quiroga. Penso que se enganaria quem supusesse uma emulação dos “tales” sombrios de Edgar Allan Poe (apesar da confessada admiração ao escritor americano). Porém, em Poe, o clima é mais lúgubre, a tensão permeia toda obra, como naqueles velhos thrillers. E posso enxergar até certos laivos de espiritualidade demoníaca –  se é profissão de fé, ou criação para impressionar os mais ingênuos, não sei.  Quanto aos personagens de Quiroga, não sei ao certo se há uma linha superior, transcedental, que lhes dirige as vidas; sei que eles são, para dizer tudo, maximamente desgraçados. Não se sobressaem por atos de heroismo, nem por virtudes ou por pecados, mas diferencia-os a posição que sempre toma as suas Rodas de Fortuna.

E aqui entra um ponto interessante. O que ameniza o sofrimento da vida, as angústias da alma, se não a superveniência da Graça? (É um termo cristão, mas não só). É por isso que esses contos trazem uma tristeza tão aterradora: porque como diz um verso do Bruno Tolentino, “tudo dói, menos a Graça”.

Sabe-se lá por que, a alguns a graça não socorre nunca; Quiroga perdeu o pai quando tinha apenas um ano de idade. Não se sabe se foi um acidente ou um suicídio. Seu padrasto matou-se com um tiro de escopeta; o próprio Quiroga, ainda bem jovem, consegue a façanha de matar o melhor amigo com um tiro, num acidente. E a sua primeira esposa, depois de discussões, comete suicídio.

Restaria diferenciar o que é o drama e o que é a tragédia – tanto na ficção como na realidade. Pois a palavra “tragédia” soa demasiado peculiar, para que seja confundida com o drama – tão mais ubíquo, mais indissociável da nossa condição de homens.

Poesias

novembro 18, 2010

 

SONO E DESPERTAR DO POETA

de Jorge de Lima (Tempo e Eternidade)


O meu nascimento me acordou.

a minha morte me adormecerá.

Tu levas um cadáver para onde amigo?

A vida é cheia de guizos

Tapa os ouvidos dorme, dorme.

dorme, dorme, a noite é boa,

o dia é oco como um guizo.

A minha morte me adormecerá

O meu nascimento me acordou.

tu levas um cadáver para onde, amigo?

Sol, sê testemunha que o fim já chegou,

que a carne morreu,

que a alma está viva.

Antes de tu te extinguires, Sol

olha o espírito continuando.

 

***

 

NEVOEIRO

de Fernando Pessoa (Mensagem)

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer —

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

Contos de Tchekhov

agosto 11, 2010

Quero falar do mestre  Tchekhov, cujos contos muito me têm impressionado. Anton Pavlovich Tchekhov nasceu em uma família humilde, na cidade russa de Taganrog. Teve seis irmãos ao todo, e se por um lado a sua infância não foi das mais fáceis, ao menos teve oportunidade de estudar em um dos melhores liceus da cidade. Graduou-se em medicina, profissão que exerceu paralelamente à vida de escritor. Escreveu prolificamente; só de contos, estimam-se mais de seis centenas. Sua arte foi também, então, importante fonte de renda.

E agora titubeio; pois é como uma baba irreprimível que me vêm à boca o velho clichê sobre o autor: sua virtude está, sim, na capacidade de tornar límpido, por meio do registro de situações comuns do cotidiano, algum aspecto trágico da vida humana. E até da inumana, é preciso acrescentar. Como no conto Testa-Branca, ou no Amor de Peixe, nos quais uma ou outra pessoa aparecem apenas como plano de fundo, como paisagem, e a complexidade, a alma, é a dos animais-personagens.

Não obstante a realidade sem véu que sua literatura, como toda a que leva o nome, permite enxergar, não se trata de autor ácido ou pessimista. Seu realismo não é amargura nem revolta; alcança, quem sabe, até a resignação. Imagino o escritor sob a escrivaninha com um velado risinho, de canto de boca; eu diria risinho machadiano, porém mais simpático à humanidade. Dizem de Tchekhov ser um autor sem programa moral específico, sem um ideal que indicie uma salvação possível, como o tinham os seus conterrâneos Tolstói ou Dostoiévski (ambos cristãos, e ambos originais, diga-se).

Ando com duas coletâneas de Tchekhov na bolsa ultimamente, ambas da editora L&PM: Um Homem Extraordinário, e A Dama do Cachorrinho. Destas seleções, destaco algumas narrativas que de algum modo me sobressaltaram, me surpreenderam, ou me confirmaram sensações e pensamentos que já se espraiavam dentro de mim. Textos nos quais encontrei “coisas minhas” – que é a forma mais valiosa de leitura e de impregnação.

EM CASA foi um dos contos que mais me tocou. Não posso reproduzir aqui sensações, por isso recomendo com ênfase a leitura do texto. Em adiantamento: na história, um pequeno menino é pego fumando os cigarros de seu pai, que é avisado da travessura. Por todo o desenvolvimento do conto, o velho homem tentará demonstrar ao filho que cigarros não são para meninos de sua idade, e que, além disso, ninguém deve mexer e pegar as coisas alheias sem pedido e permissão. A atitude do menino é inquieta e dispersa o tempo todo – ele é ingênuo no seu desprezo às palavras complicadas do pai. Então se segue uma aula de Pedagogia, quando vemos Tchekhov mudar a estratégia do pai e por fim atingir o objetivo de inculcar certa ideia na cabeça da criança. Mas aí é que começamos a tremer de nossa própria condição: possíveis crianças ingênuas. Ou pior: velhos sagazes.

[continua]